
Escrito na rodoviária de Maringá: 15/11/2009 06:40 am Maringá ainda dorme.
Sinto o gosto do tabaco em minha boca.
Sinto o frio da manhã após uma noite de chuva.
Sinto as lágrimas reprimidas durante o dia anterior lavarem o meu rosto.
Sinto também o arrependimento por ter dormido e perdido a oportunidade de dar meu último adeus aos gêmeos.
Os gêmeos, chamávamos assim Paulo e Hugo, Paulugo, como se fossem um.
Gêmeos idênticos, sempre juntos. Fumantes, vestidos de preto, 25 anos.
Gostavam de velocidade,e motocicletas.
Quando adolescentes, gostavam de RPG.
Paulo sempre foi mais aberto e bem educado.
Hugo mais na dele, fechado.
Paulo, engenheiro civil.
Irmãos, companheiros, sempre juntos. Nasceram juntos, faleceram juntos. Aquela que estava presente no momento do seu nascimento também se foi, Foram-se os três, juntos, unidos.
Nunca desejei tanto estar em Cianorte, para dar-lhes um último adeus.
Última vez que eu vi o Hugo foi sábado passado, no show do Titãs..
Última vez que conversei com o Paulo foi no GoldBar, no Pearl Jam cover.
Na penúltima vez em que os vi juntos, realizei um desejo de adolescente e "fiquei" com o Paulo.
Agora ele não está mais nesse mundo.
Injustamente, ele, eles, se foram.
Ironicamente, num acidente de carro.
Deixando inconsoláveis as irmãs, a mais velha grávida, do 1º filho.
O mais cruel, é que há +- dez anos, o pai deles faleceu da mesma forma,
Penso como ficará a cabeça das meninas.
Se a minha já não aceita, se a minha não consegue acreditar e sem vê-los, vai ser ainda mais difícil.
Companheiros de saída de fim de semana na adolescência.
Companheiros de festivais de metal.
Companheiros de formatura.
Companheiros de bebedeiras.
Eu não consigo entender a lógica no que aconteceu.
Eu não consigo me conformar.
Eu não consigo entender o porquê de deus tirar a vida de forma tão trágica.
E saindo da rodoviária de minha querida Maringá, eu só queria estar em Cianorte, e dar-lhes um último adeus.
Eu peço em pensamento que eles me ouçam, onde quer que estejam, porque precisam estar vivos em outro lugar que não seja em nossas lembranças.
Ontem eu fiquei com uma sensação ruim o dia todo, perdi o ônibus. Não era pra eu vir pra Maringá.
Eu quero entender porque os que roubam, matam, estupram, poluem, enganam, trapaceiam permanecem vivos e os bons, morrem jovens...
Eu quero entender eles se foram e de forma tão trágica, rápida e dolorida.
Eu queria entender o porque de eles não poderem se casar, ter filhos viajar e morrer calmamente, já idosos.
Nascemos no mundo com a única certeza da morte, mas deveria ser proibido morrer sem completar o ciclo "nascimento, crescimento,reprodução"

16/11/2009 Eu consegui vê-los, e ainda assim, eu não acredito...Eu não entendo... Ainda não é real... a Voz do Paulo, não sai da minha cabeça... Estou com saudades, estou triste, quero ir embora daqui...
*Dessa linda família, só restaram as meninas, Michelly e Ana